Finais decepcionantes
Por que séries como “The Boys” e “Stranger Things” derrapam na linha de chegada
Pontas soltas, conclusões insatisfatórias, repetição de ideias, desperdício de personagens. Essas foram umas das pragas da conclusão de The Boys, que também afetaram Stranger Things e Game of Thrones. É um mal moderno que acomete séries de imenso sucesso no início e um fenômeno aparentemente restrito ao modelo de streaming — ainda que um dos precursores tenha sido Lost, lá no tempo dos incas, dos seriados populares da TV aberta americana.
The Boys se encerrou semana passada após duas temporadas praticamente idênticas, com situações que se repetiam, narrativas sem nexo e uso abusivo de deus ex machina. Preferiram fazer uma analogia ao governo Trump (mordaz e divertida em poucos momentos) em detrimento de bons roteiros e avanço na história, e o resultado foi um epílogo chinfrim e forçado.
Quase todas essas críticas podiam ter sido dirigidas a Stranger Things e Game of Thrones. E, colocando as três séries no mesmo balaio, vemos que não é um problema exclusivo de um único serviço de streaming: temos Prime Video, Netflix e HBO na berlinda.
A questão recai sobre a forma atual de produzir esse conteúdo. Hoje em dia, quanto mais tempo dura uma série, menor fica o departamento de roteiro — e maior fica o orçamento. A conta da qualidade criativa não fecha. Antigamente, os seriados tinham por volta de 22 episódios por temporada (visando o número mágico de cem para vendê-los para syndication), escritos por uma equipe de dez a doze roteiristas. Hoje, o streaming trabalha com “mini-rooms” (derivativo de writers’ room, ou sala de roteiristas) com três ou quatro profissionais que têm que dar conta de seis a dez episódios.
O próprio formato do streaming, de produzir (e, no caso da Netflix, disponibilizar) tudo de uma vez, também impede que os roteiristas corrijam desvios de rota. Os roteiros já têm que estar fechados de vez, sem retorno, para a produção em massa dos episódios. Vira uma fábrica de salsicha — estragou uma, perde-se o lote inteiro.
Outro problema (mas esse não afetou The Boys, segundo o showrunner Eric Kripke) é o inchaço de orçamento a cada temporada, o que corta o número de episódios. Isso, é óbvio, tem efeitos drásticos na narrativa. Por exemplo, o orçamento por episódio de Stranger Things pulou de 40 milhões de dólares na quarta temporada para 60 milhões na quinta. Dinheiro que, como vimos, não resultou em roteiros melhores. Kripke sustenta que The Boys se manteve na casa dos 11 milhões de dólares por episódio durante toda a produção, e de fato o final “pouco épico” — contido no Salão Oval da Casa Branca e repetindo coreografias anteriores dos combates entre supers — atesta isso.
Correndo por fora, há o fator ganância dos showrunners. Quando uma série emplaca, o passe deles é valorizado e, naturalmente, surgem propostas de outros players ou até mesmo ofertas faraônicas do próprio serviço, para mantê-los na casa e gerar mais produtos. De repente, a mente criativa se ocupa com o próximo projeto — e o atual é relegado (ou delegado a subalternos). David Benioff e D.B. Weiss, de Game of Thrones, sonharam alto com o contrato milionário com a Lucasfilm/Disney para produzir uma trilogia de Star Wars (que não vingou) enquanto encerravam nas coxas a série baseada nos livros de George R.R. Martin. Kripke preferiu plantar as sementes do futuro derivado Vought Rising nas temporadas finais de The Boys do que cuidar melhor das tramas da série em seu encerramento.
A vindoura Vought Rising
Claro que esse não é um fenômeno que afeta todas as séries de streaming. Eu não vejo Slow Horses, mas o Rodrigo Salem, do Desafiador do Desconhecido, atesta que é consistentemente boa e bem planejada, por exemplo. Mas que é um problema que aflige as séries de grande sucesso, isso sim é, infelizmente, comprovado.
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Dois pontos rápidos:
1. Plot e argumento. Se você (enquanto produtora) não tem grana ou não quer investir em conteúdo original, adapte livros. O texto está lá, diálogos, roteiros, plot, cenas. O trabalho duro já está feito. Apple só produz adaptações ou produtos com uma temporada, roteiro 100% pronto antes de filmar. Exceção do For All Mankind (que está desgastado, mas ainda segura o interesse) e Pluribus.
2. Ciclo de interesse e curto-prazismo das 'redes' (de TV ou streaming). Imagino um Breaking Bad hoje em dia. A parada só vinga na segunda (terceira?) temporada. Desenvolver um texto zerado com inicio meio e fim custa e colocar no compasso correto de uma série de TV por vezes demanda investimento e gasto de tempo de exibição. Se a atenção da audiência é de peixe dourado, a paciência dos estúdios e produtoras pro retorno financeiro é menor ainda.
De resto, não achei o fim de The Boys tão ruim assim. O gibi já era bem merda. A série é melhor que o gibi mesmo nos momentos mais fracos.
Eu discordo um pouco. Acho que essas séries já vinham se deteriorando há bastante tempo. Para mim, a grande questão é por que as pessoas só conseguem enxergar esses defeitos quando o final acaba sendo decepcionante.
Game of Thrones, por exemplo: eu gosto do final. Acho que ele só vira um problema para quem não percebeu o nível que a série tinha alcançado depois que o George R. R. Martin deixou de servir como base direta para a história. A temporada anterior já tinha vários furos de roteiro e situações difíceis de engolir. O final apenas foi coerente com o que a série tinha se tornado havia pelo menos três temporadas.
Stranger Things talvez seja o caso mais complicado, porque os próprios irmãos Duffer mostraram, na última temporada, que eram capazes de fazer algo muito melhor. Ainda assim, a qualidade está bastante alinhada com a das temporadas anteriores; só não percebeu isso quem não queria perceber.
The Boys, para mim, é quase um surto coletivo. A série parece uma grande desconstrução apenas para quem está acostumado com o universo cinematográfico da Marvel, mas não acompanha quadrinhos há muito tempo. Tirando o Karl Urban e o Antony Starr, além de algumas exceções pontuais, boa parte do elenco entrega atuações dignas de Os Trapalhões, especialmente na primeira temporada, que alterna momentos fantásticos do Homelander com cenas absolutamente constrangedoras.
Fun fact: No Canadá, estava passando uma propaganda de laxante no meio dos episódios. Achei uma simbologia involuntariamente apropriada daquilo tudo.