Uma adaptação com a Força
“Mestres do Universo” é uma versão legítima do bom e do pior do desenho da Filmation
Já começo a resenha dizendo que errei feio, errei rude, no artigo em que apostava que o He-Man só surgiria nos momentos finais de Mestres do Universo, adaptação live action da linha de bonecos/desenho da Filmation dos anos 1980. Ele tem bom tempo de tela — só não vou estragar a experiência de ninguém dizendo em que momento (ou momentos) o Príncipe Adam se transforma no tal “homem mais poderoso do universo”.
Isso posto, Mestres do Universo consegue a proeza de adaptar de maneira bem fiel (não de todo) a animação. O artificialismo e a limitação dos cenários, que pareciam defeitos nos trailers, no filme completo se encaixam perfeitamente à proposta de emular o estilo artificial e limitado da Filmation, quiçá um dos estúdios de animação mais picaretas da história.
Há menções carinhosas à primeira versão live action de 1987 com Dolph Lundgren, a começar pelo trecho ambientado na Terra. O que naquele filme foi uma opção da produtora Cannon para esticar o orçamento de duas mariolas, aqui se torna uma boa sacada de trama: assim como Kal-el, o Príncipe Adam é mandado como criança à Terra para se salvar; no caso, se abrigar do ataque do Esqueleto a Grayskull. Ele cresce entre nós, sempre sonhando com Etérnia e a volta para a terra natal.
Adam vive como funcionário de um departamento de RH — o que também faz sentido na construção de um personagem mais empático e que resolve conflitos na conversa. É o conceito ideal para o Príncipe Adam, que vai além do mero “rapaz fingindo de covarde para esconder a identidade secreta”. (As outras citações a Mestres do Universo de 1987 eu deixo para vocês escreverem nos comentários e por lá continuarmos a conversa, sem encher de spoilers a crítica).
Adam é a alma do filme, e que achado é Nicholas Galitzine como seu intérprete. O personagem, que no desenho era um chato de galocha até virar o He-Man, aqui é cativante e divertido, sem provocar consulta ao relógio (não ligue o celular no cinema) para conferir o tempo até a transformação no super alter ego — um feito que, mesmo sendo mostrado diversas vezes nos trailers, ainda guarda surpresas.
Tão importante em um filme do He-Man é seu arqui-inimigo Esqueleto. Aqui temos uma dissociação de intenção e execução. O espírito de diva reclamona está lá, ele solta tiradas dignas do desenho (“sua massa de músculos!”)... mas a interpretação de Jared Leto, emulando Tim Curry em A Lenda, fica à sombra da dupla Isaac Bardavid/Allan Oppenheimer (eu acho ambas as versões geniais). Pelo menos nesse quesito, Mestres do Universo é um raro momento em que o He-Man é mais interessante que o Esqueleto.
O espírito do desenho também permeia a trama e o roteiro. Tudo é resolvido de maneira infantil e os fatos não resistem ao exame lógico. Exemplos: o Esqueleto é mau, mas mantém prisioneiros por longos anos; os heróis se entregam em um plano bobo; quinze anos se passaram sob o jugo do Esqueleto, mas parece que foram cinco minutos.
Mas exigir algo diferente disso tiraria a alma Filmation de Mestres do Universo. Ainda bem que ela está lá, com direito a várias lições de moral. Mas, ao contrário da falsa retidão moral das produções atuais, dar lição de moral está no DNA de He-Man.
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Para esse filme essa é a crítica que vale!
Vou assistir hoje à noite, depois volto aqui pra comentar.