O Oscar de outrora
Como era a transmissão da cerimônia na TV aberta brasileira
Todo ano ouvimos o mesmo discurso: o Oscar é injusto, é um jogo de lobby, é longo, é cafona, não tem graça, não se conecta com o público. Muito disso (ou tudo) é verdade, porém, mesmo assim, é difícil para um cinéfilo não se envolver com a premiação — ainda que algumas edições recentes tenham sido sofríveis.
O que mudou, pelo menos aqui nessa monarquia disfarçada de república ao sul do Equador, foi a experiência da transmissão. Hoje temos o luxo do streaming, com a cerimônia completa e a faixa de áudio original prontamente acessível. Nem sempre foi assim, nem na época da TV por assinatura — que representou um avanço significativo em relação aos tempos sombrios da exibição pela TV aberta.
Vou lembrar aqui dessa época, me atendo mais a lembranças afetivas do que mesmo seguindo um rigor jornalístico de informações. Quem tiver memórias dessa época (ou questionamentos), por favor, use e abuse da caixa de comentários para incrementarmos a conversa.
Meu interesse pelo Oscar na virada dos anos 1970 para 1980 começou, como tudo ligado ao cinema na minha história, com Guerra nas Estrelas (neste artigo não cabe chamar de Star Wars). Eu queria ver os atores no palco, as criaturas, a celebração das pessoas por trás das câmeras que realizaram aquilo que eu, como criança, já queria entender como foi feito. (Na foto acima, o figurinista John Mollo leva o Oscar da categoria pelo filme de George Lucas).
O Oscar passava na Globo às segundas-feiras (a mudança para os domingos só ocorreu em 1999) e avançava madrugada adentro. Naquela época, criança dormia cedo, especialmente em dia de escola, então rolava uma negociação com meus pais. Felizmente, eles sempre apoiaram meu interesse por artes e literatura e, sendo cinéfilos também, entendiam que era saudável abrir essa exceção.
Já cedo eu demonstrava incômodo com a tradução simultânea, que me impedia de ouvir a voz dos atores e realizadores, ainda que adorasse as intervenções do mestre Rubens Ewald Filho enquanto o premiado se levantava e ia ao palco. Eu era leitor voraz da Cinemin e da Vídeo News, e o “Rubão” assinava os valiosos Guias da Vídeo News, que eu devorava de cabo a rabo. Ainda faltavam alguns anos para a Revista SET ser lançada (de onde muitos aqui me conhecem como colaborador — um sonho realizado na profissão).
Voltando à tradução simultânea. Depois das primeiras transmissões que vi, já entrando na pré-adolescência, descobri que a rádio gaúcha Eldorado FM transmitia o som original da cerimônia! Concebi meu masterplan: usar o fone gigante daquele torre de estéreo dos anos 1970, com um generoso cabo fio de telefone de uns dois metros, para plugar na rádio enquanto via o Oscar com a cara na TV de 20 polegadas (a maior da época). Isso me trouxe dois benefícios: finalmente ouvir a cerimônia com som original e não incorrer mais nas reclamações de som alto na casa nas altas horas (eu botava o volume no máximo para tentar ouvir o que os gringos falavam por baixo da tradução, o que rendia muita bronca dos meus pais).
Mais um parênteses se faz necessário: agora com longa carreira como tradutor literário, entendo e respeito o trabalho dificílimo dos colegas da tradução simultânea (já fiz uma vez e afirmo que é para os fortes). Aquilo me atrapalhava porque eu já começava a não precisar mais; porém, é um trabalho bonito, digno e complexo, que envolve saber inglês, entender de cinema e ser criativo para piadas e trocadilhos em cima do laço. Não é pouca coisa não.
Pelo que me recordo, a transmissão da Globo na época era típica da emissora: como a programação principal era o que gerava milhões em audiência e retorno financeiro, o Oscar ficava em segundo plano, já começava em andamento e com cortes. Era um compacto de luxo. Isso sempre me frustrava, mas pelo menos agora, dava para acompanhar desde o início pelo rádio.
Ao ter acesso ao som original, finalmente caiu por terra, ao meu ver, as críticas que eram feitas à cerimônia pelos jornalistas brasileiros da época, especialmente em relação ao humor. “Piadas sem graça”, diziam. Criatura ignorante, era você que não entendia! O “especialista” em cinema ouvia o troço traduzido no improviso, não captava as piadas internas que deveria entender por se dizer expert em Hollywood, e aí julgava o espetáculo dessa forma.
E eu, ainda sem barba na cara, já dava minhas risadas com Billy Crystal e começava a entender os meandros da capital do cinema, ajudado pela leitura valiosa das publicações brasileiras da época.
A gambiarra do som via rádio acabou quando os televisores avançaram e ganharam a tal “tecla SAP” nos controles remotos, que viabilizou ouvir o som original quando disponível — avanço prontamente abraçado pela Globo. O começo da transmissão ainda era capado, mas pelo menos agora a experiência era aproveitada em um só equipamento (acho que já tínhamos uma Sony Trinitron de 34 polegadas na sala — um monstro!).
Não me recordo quando o grande Rubens Ewald Filho deu lugar ao José Wilker como comentarista, mas lembro bem da cerimônia de 1994, a estreia da atração no SBT e com Rubão no estúdio. Era a primeira vez que o Oscar era exibido na íntegra, sem os cortes da Globo. Parecia o fim dos tempos sombrios, mas não durou muito (a emissora de Sílvio Santos exibiu o Oscar de 1994 a 1996 e 2000 a 2004). Em 1995, o diretor da Central Globo de Programação, chegou a dizer que a cerimônia era “ruim de audiência e até de faturamento”, para justificar o desinteresse. Mas a verdade era outra: a Disney, dona da ABC, condicionou a renovação dos direitos com a compra de trinta produtos do estúdio, que não interessaram à Vênus Platinada, e o negócio não foi fechado.
Isso já são lembranças de minha versão jornalista formado, cobrindo cinema, longe do menino de fone de ouvido captando o som de uma fonte e o vídeo, de outra. De lá para cá, o interesse deixou de ser ver os ídolos da Sétima Arte serem premiados (e muitas vezes conhecer a cara do povo atrás das câmeras, como compositores, técnicos de efeitos especiais e desenhistas de produção) e passou a ser profissional, para analisar e opinar, antes e depois da entrega das estatuetas.
A coisa toda pode ter perdido muito da magia, mas, sempre que a cerimônia começa, ainda tento honrar aquela versão de mim mesmo que pediu aos pais para dormir mais tarde, mesmo com aula no dia seguinte, para ver os realizadores de sonhos em carne e osso.
(Eis aqui um Oscar da Globo na íntegra, o de 1984, o que mais torci porque O Retorno de Jedi concorria a quatro Oscars e levou um prêmio especial pelos efeitos visuais.)
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O ponto alto aqui em casa foi meu filho de 5 (também em critério de execeção) enloquecendo com o baby yoda. Chegou a pegar um boneco dele que tinha e nunca tinha dado bola e dormir com ele.
Já pensou como seria com comentários do Rogério Durst?