O mito do herói cansado
“A Odisseia” de Christopher Nolan segue a cartilha atual do protagonista traumatizado e derrotado
Muitos heróis são conhecidos pela força e bravura em combate; poucos, porém, demonstram mais astúcia do que capacidade para violência. Enquanto Aquiles distribuía sopapos diante das muralhas de Tróia, foi Odisseu que tramou o plano ardiloso de invadi-las deixando o literal presente de grego — o cavalo gigante que foi guardado pelo inimigo dentro da cidade e permitiu que o herói abrisse os portões por dentro para a invasão das forças de Agamenon.
Não é esse Odisseu que vemos em A Odisseia, versão pós-moderna e desconstruída de Christopher Nolan para o texto de Homero, quiçá a maior aventura de todos os tempos. A encarnação vivida por Matt Damon segue à risca a interpretação atual (que na verdade já dura mais de dez anos) de protagonistas fracassados e traumatizados por seus feitos anteriores. A lista inclui desde personagens estabelecidos como Robin Hood (no vindouro filme com Hugh Jackman), Logan (Hugh Jackman de novo!), Luke Skywalker e Indiana Jones, até inéditos, como o herói do recente Dungeons & Dragons (papel de Chris Pine). Todos são a mesma figura envelhecida, patética, derrotada e assombrada pelo passado.
É impossível tirar esse aspecto do caminho porque A Odisseia de Nolan é exatamente isso: um estudo a respeito de trauma de guerra, responsabilidade e fé. Odisseu carrega o peso do mundo por ter sido o responsável pelo massacre de Tróia e por ter abandonado a esposa Penélope (Anne Hathaway) e o filho Telêmaco (Tom Holland) pelo dever de seguir o rei Agamenon para a campanha contra a cidade mais rica da época. O retorno cheio de peripécias, como sabemos, virou a legítima “odisseia”.
Nolan usa a amnésia de Odisseu como recurso narrativo para ir e voltar na história, como se as memórias fragmentadas fossem surgindo e desaparecendo. Essa é uma das melhores qualidades da versão de Nolan, assim como a exploração do vício do Odisseu na flor de lótus oferecida por sete anos por Calipso (Charlize Theron) — o que o torna um protagonista não confiável. Será que os delírios envolvendo deuses e criaturas foram fatos reais ou fabricados por uma mente traumatizada, viciada e desmemoriada?
Falando nos deuses, muito se criticou o Troia (2004) de Wolfgang Petersen pela ausência das divindades tão presentes na Ilíada, mas aqui Nolan não fez muito diferente. Os deuses norteiam a trama na forma de crenças e superstições — a tal “lei de Zeus” — e somente aparecem na forma de Zendaya (como a deusa Atena), que apenas Odisseu enxerga. Ou seja, eles podem ou não existir, considerando sua mente perturbada.
Em termos de produção, infelizmente, o filme deixa muito a desejar. Talvez seja uma das superproduções milionárias mais pobres já exibidas. Tudo é essencialmente feio e tosco. Seria para refletir a ideia de “decadência da civilização” após a Queda de Tróia? (Odisseu/Matt Damon chega a dizer “nossa Era do Bronze estã em colapso” — um dos muitos diálogos ridículos do filme. Mais a respeito disso daqui a pouco). Se for o caso, não faz sentido, pois até Tróia, que seria o pináculo daquela época, é retratada de maneira brutalista, sem detalhes e ornamentos. O figurino e armaduras, já massacrados meses antes pelos teasers e fotos, não merecem as críticas apenas pela imprecisão, mas sim por serem malfeitos e vagabundos.
O elenco também joga contra a experiência. Parece que só há dez pessoas trabalhando em Hollywood atualmente, e todas estão em filmes da Marvel ou, em menor parte, da DC. Quando não, estão em blockbusters como Duna e esse aqui. Há um cansaço em ver esses rostos, e ainda que Anne Hathaway dê tudo de si, por exemplo, Jon Bernthal e Tom Holland só repetem os cacoetes canastrões de sempre (e já os veremos no próximo Homem-Aranha, daqui a poucas semanas!) — e Robert Pattinson fica relegado a uma interpretação de Dick Vigarista. Quem se sai melhor e contribui mais são os relativamente sumidos John Leguizamo e Samantha Morton; ela, inclusive, estrela a melhor sequência do filme inteiro como a bruxa Circe.
E o pior é que atores desse calibre — a elite do momento de Hollywood — têm que se virar com diálogos modernizados que cabem tão bem em A Odisseia quanto um relógio de pulso. As trocas de farpas entre Tom Holland e Robert Pattinson são constrangedoras, dignas de considerar abandonar a sessão.
Nem tudo é uma tragédia grega, porém. A sequência com o ciclope Polifemo impressiona e, como já dito, a parte com a transformação da tripulação sob o efeito do encantamento da Circe é o ponto alto do filme. O som é um espetáculo à parte, especialmente nas cenas no mar revolto causado pela fúria de Poseidon.
Mas é muito barulho por nada.
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Essa coisa da produção me pegou. Acabei de ver. Q filme escuro e feio. E o Odisseu é o Oppenheimer grego. Nolan é um cineasta superestimado há tempos.
Gordirro tava muito amargo.