Justiceiro sem rumo
Marvel prova que não sabe — outra vez — o que fazer com o personagem
Pobre Frank Castle. É difícil ser um personagem que é a encarnação viva do bordão “bandido bom é bandido morto” nos tempos atuais, especialmente na Marvel de hoje. Sem saber como tratá-lo, a editora o coloca numa gangorra narrativa: uma hora, ela empurra Frank Castle para o fantástico e, após a resistência do público, volta com ele para o realismo urbano, num sobe-e-desce francamente (epa) previsível e ruim.
A Marvel retomou o Justiceiro em duas minisséries (de 2025) e uma nova série regular (fevereiro de 2026) que marcam o retorno ao quadrinho policial de vingança, sem fantasias místicas; porém, os títulos apresentaram não só uma coincidência narrativa bizarra, como apelaram para uma justificativa “não fui eu, eu estava doidão” como mea-culpa para seus atos questionáveis.
Vamos por partes, então, como diria Retalho (o Coringa do Justiceiro): no passado, saíram as minisséries Marvel Knights: Punisher (que revitalizou o selo lendário da Marvel) e Punisher: Red Band (para adultos, vendido em saco plástico como as antigas revistas pornô no Brasil da censura). Ambas prometeram a volta do Justiceiro “justiceiro”, para tirar o mau gosto da fase em que Frank Castle foi líder do Tentáculo, só que a execução das duas foi estranhamente parecida.
Em Marvel Knights: Punisher, de Jimmy Palmiotti (roteiro) e Dan Panosian (arte), o Justiceiro investiga uma nova droga na cidade que transforma os usuários em zumbis, e o traficante responsável injeta o produto nele, que vira “El Zombie” — um assassino sob controle do cartel. Em Punisher: Red Band, de Benjamin Percy (roteiro) e Julius Ohta (arte), o Justiceiro acorda desmemoriado em meio a um massacre e descobre está sendo manipulado por um chip na cabeça instalado por Wilson Fisk — e ele vira um assassino sob controle do Rei do Crime.
A coincidência bizarra salta aos olhos, mas o editorial da Marvel fez cara de paisagem e publicou mesmo assim. O velho clichê do “controle por agente externo” — seja por chip, droga, feitiço ou o que for — é uma muleta narrativa que tira a agência do personagem, como forma de redimir/atenuar seus atos de justiça com as próprias mãos. É a forma de a editora passar pano para o que o Justiceiro sempre agir como matador, como se tivesse vergonha de tê-lo no plantel de personagens.
Sinceramente, se for para ser assim, é melhor aposentá-lo de vez (claro que isso é um delírio nessa época de propriedades intelectuais)
E na esteira de Punisher: Red Band, saiu agora uma nova série regular (apenas The Punisher, com número 1 e tudo), ainda com texto de Benjamin Percy e agora com desenho do brasileiro José Luís Soares (que é bem fraco, digamos assim, em respeito ao conterrâneo). Percy tem que lidar com as consequências da trama do controle mental e mostra um Justiceiro sendo “punido” pelo próprio corpo. Ou seja, ele está consciente, pero no mucho. E Percy já abre a série com o retorno do Retalho, há tempos sumido do universo de Frank Castle.
Arte do brasileiro José Luís Soares
Isso parece uma resposta às reclamações de Chuck Dixon no X (ora, onde mais?). Um dos roteiristas que definiram o Justiceiro nos anos 1980 e 1990 — e hoje fora da Casa das Idéias por ter se revelado conservador —, Dixon postou: “Ninguém na Marvel hoje entende o personagem ou sabe como escrevê-lo. Eles têm medo do que Frank Castle realmente é: um homem comum com uma vontade inquebrável. Se você precisa de um chip ou de uma droga para fazê-lo agir, você não está escrevendo o Justiceiro, está escrevendo uma marionete.”
Difícil discordar dessas palavras, quer se esteja no outro espectro político ou não do roteirista. Percy, no mesmo X, foi diplomático ao abordar o assunto, que, claro, virou polêmica: “Respeito imensamente o legado do Chuck, mas Frank Castle não vive no vácuo. Em 2026, o controle não é apenas físico, é sistêmico. Explorar a perda de agência dele foi a forma que encontramos de mostrar como sua vontade realmente é forte quando ele finalmente quebra as correntes.”
O editorial da Marvel vende Benjamin Percy como “um grande fã do Justiceiro” e que tanto sua minissérie Red Band quanto a nova série regular são retornos à glória de vingador do personagem. De fato, não há anjos, mortos-vivos e ressurreições na trama, o que já é um alívio e mostra que a gangorra narrativa voltou para o realismo urbano (com aqueles clichês de “ruas fétidas” do Frank Miller que Rodrigo Salem tanto ironiza nas nossas lives.)
Benjamin Percy, novo roteirista do Justiceiro
Mas ainda incomoda que o Justiceiro seja um passageiro no próprio corpo em três quadrinhos distintos, como um “foi mal” barato da Marvel em manter um personagem anacrônico (na visão dela) no seu rol de heróis.
(Em tempo: uma pena que Marvel Knights: Punisher apele para a ridícula trama da droga zumbi que controla a mente de Frank Castle, pois a arte do Dan Panosian é sensacional, de longe a melhor desde que o croata Goran Parlov desenhou o personagem — aí em fase áurea com texto de Garth Ennis, o roteirista definitivo do Justiceiro.)
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Eu acompanho o Justiceiro há anos, leio é claro em inglês junto com os lançamentos nos Estados Unidos, sendo quarta-feira meu dia favorito por causa disso.
Marvel Knights: Punisher é ruim demais, principlamente na arte. A atual Marvel Knights é bem diferente com artes muito boas e roteiro bom apesar de confuso.
A red band começou bem e acho interessante não explicarem o que houve com ele. Na última vez que vimos Frank, ele estava ajudando crianças em uma dimensão demoníaca. Mas o caminho da Red band, apesar da arte foi confuso, até mesmo para quem não acompanha o demolidor e entende o que o está ocorrendo na cabeça do Rei do Crime.
Quanto a nova mensal, eu gostei, acho que o benjamin escreve bem o Frank. Não mostrou ainda a que veio e gostei muito da arte apesar da red band ter sido melhor em arte. Dito isso continuarei dando chance ao justiceiro, não o da Marvel Knights mas o do universo regular. Sinceramente, melhor que aquele justiceiro loiro ex shield.
Permita-me fazer uma honrosa menção ao ICÔNICO Mike Zeck.